Denúncia – Espaço do Leitor

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Foto: Rosi Masier

Oliver, a beleza transformada em tristeza.

Júlio Ottoboni e Natália Petri

«Cada criatura é objeto da ternura do Pai que lhe atribui um lugar no mundo», Papa Francisco na Carta Encíclica LAUDATO SI’

Foto: Rosi Masiero
Foto: Rosi Masiero

Veja bem essa foto. Esse é o Oliver, um gato no auge de sua juventude aos três anos de idade. Dócil, acanhado e muito bonzinho, esses eram predicados que qualquer pessoa que convivesse com esse gatinho elencaria sem a menor dúvida. Era comum encontra-lo brincando entre as plantas no jardim em frente sua casa. Um presente da natureza num mundo construído sob alicerces da violência, intolerância e da insegurança.

Oliver foi morto, cruelmente assassinado com veneno. Acostumado com afagos e carinhos, não pode reconhecer seu assassino. O homem para ele era um espécie boa, que lhe dava comida, água e abrigo. E não um monstro covarde, um psicopata, possuído pelo ódio e destilando seus rancores num rastro de morte.

Oliver é mais uma vítima entre dezenas de animais mortos e desaparecidos no bairro Urbanova. Esse gatinho morava no Recanto da Serra, na Rua Artur Carlos Ferreira, um local onde em menos de 80 metros de ruas mais de 20 gambás e tatus foram assassinados em seis meses, mais de duas dezenas de gatos nos últimos anos e inúmeros pássaros. Esse lugar poderia ser tratado como o covil de uma figura de alma deformada, surgida do inferno da Divina Comédia de Dante.

Hoje o jardim silenciou, seus tutores e os que paravam por alguns instantes para vê-lo brincar com outros gatinhos estão imersos na tristeza e na revolta pela sordidez do crime.

Faltou ao seu algoz ficar para observar sua obra. Ver o lindo gato se contorcer de dor assim que ingeriu o veneno, a violência da hemorragia interna generalizada pela corrosão dos órgãos. Neste espetáculo tétrico, o bichinho passa a tossir, tem aumento da região abdominal e dificuldade de respirar. Salta da boca a salivação excessiva, o corpo entra em convulsão, os movimentos que restam ficam descoordenador, ele é tomado pelo tremor e asfixia. Uma morte altamente dolorosa, repleta de desespero e aflição.

Neste mesmo dia, outro gato e uma pomba foram mortos também com caraterísticas de envenenamento por ‘chumbinho’, um raticida – inclusive ineficaz- ampla e criminosamente usado nestes atentados contra a vida.

Pessoas que apresentam desejo de maltratar, torturar, ou mesmo sentem prazer ao ver o sofrimento de um animal, têm sem dúvida, um potencial psicopata.

“As pessoas que maltratam animais são insensíveis, são pessoas que não possuem sentimentos superiores de piedade, e elas normalmente são conhecidas como psicopatas, como sociopatas. São pessoas perversas, e normalmente quando praticam um crime, são pessoas de difícil recuperação social” – Guido Palomba – psiquiatra forense.

Segundo pesquisas americanas, pessoas que cometem crimes contra outras pessoas, têm histórico de violência contra animais. Hoje, os atos violentos contra animais são considerados indicadores de transtorno mental. Nos Estados Unidos, estudos têm convencido sociólogos, legisladores e tribunais de que atos de crueldade contra animais merecem sim a nossa atenção. Esses atos podem ser os primeiros sinais de uma doença mental que levará os atacantes a serem violentos com seres humanos.

“Qualquer pessoa que, uma vez, chegue à conclusão de que a vida de qualquer animal é indigna de ser vivida, existe o risco de que um dia ele também chegue a conclusão de que a vida humana não vale nada,” escreveu certa vez o humanista Albert Schweitzer.

Psicopatas não atacam necessariamente pessoas que não gostam, podem escolher vítimas a esmo, pode ser um cão, uma criança, um idoso, uma mulher….

Abuso e violência contra animais podem ser sintomas de um profundo distúrbio. Pesquisas nos campos da psicologia e criminologia mostram que pessoas que começam abusando de animais, seja na infância ou na vida adulta, acabam perpetuando os mesmos abusos contra pessoas.

Em 2010, a Universidade da Flórida realizou um estudo com pacientes do seu departamento de psiquiatria que repetidamente torturavam cães e gatos. O estudo mostrou que todos eles mostravam altos níveis de agressividade para com pessoas, inclusive um dos pacientes havia assassinado uma criança.

 “Quando animais sofrem abusos, as pessoas estão em perigo. Quando as pessoas sofrem abusos, os animais estão em perigo”– Associação Internacional dos Chefes de Polícia-EUA.

Já passou da hora de nossas autoridades reconhecerem que o abuso para com qualquer ser vivo é inaceitável e constitui um perigo para a sociedade.

De acordo com Lei 9.605/98, dos Crimes Ambientais, maus-tratos contra animais domésticos, nativos ou exóticos caracterizam crime e podem render pena de detenção de três meses a um ano e multa. Uma pena branda, infelizmente.

O que atrai um psicopata é a realização obsessiva de suas fantasias macabras, mas o que o mantém em ação é a impunidade e a sensação de poder que lhe confere a convicção de estar acima dos outros homens, da lei e da moral.

Quando se lembrar do Oliver ou encontrar um indivíduo de outra espécie morto cruelmente na rua ou em qualquer outro lugar, lembre-se que esse planeta é de todos que nele surgiram e o habitam.  Não basta ficar chocado com histórias como essa e continuar inerte, denunciem. Esse câncer se espalha exatamente pela inação, pela passividade dos bons.

“Para o triunfo do mal só é preciso que os bons homens não façam nada”. Edmund Burke

Por Júlio Ottoboni, jornalista diplomado, pós-graduado em jornalismo científico. Atua no segmento de jornalismo ambiental e possui diversos cursos na área, além de publicações de artigos e livros. Morador há 21 anos no Urbanova. Natália Petri, advogada, pós-graduada em direito publico. Moradora do Urbanova há 10 anos.

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