Eu moro no Urbanova: Carlos Carrasco

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EU MORO NO URBANOVA

CARLOS CARRASCO

Foto: Ulisses Fernandes
Foto: Ulisses Fernandes

Aos 51 anos de idade, ele esbanja sabedoria e serenidade. Depois de mais de 30 anos de uma atuação brilhante no mundo da moda como cabeleireiro e maquiador ele vive uma fase que privilegia a qualidade de vida e intensidade nos trabalhos que desenvolve. Carlos Carrasco é natural de Santo André, mas se considera joseense.  É casado há 17 anos com Erbert Mainardi, tem quatro irmãs, 11 sobrinhos e um grande amor pelos pais e toda a família.

Fo um dos precursores da moda em São José dos Campos. Trabalhou com grandes nomes como Gisele Bündchen, Cléo Pires, Fernanda Montenegro, Débora Bloch, Gabriela Duarte, Ricky Martin, Will Smith, esteve ao lado dos principais estilistas e assinou a capa das mais destacadas revistas mundiais!

Nessa entrevista, ele fez declarações surpreendentes e falou sobre a decepção com os envenenamentos e desaparecimentos de gatos no Urbanova.  Criticou o culto a beleza, os tratamentos exagerados nas fotos de capas de revistas e os equívocos espalhados pelas redes sociais, blogueiras e youtubers.

Como São José dos Campos entrou em sua vida?

Meu pai é petroleiro, trabalhava na Petrobrás e, antes de vir para cá ficamos 3 anos em Curitiba. Ele veio transferido para a REVAP, foi quando inaugurou a REVAP. Viemos para cá quando eu ainda era pequeno, eu sou joseense – eu não consigo dizer que sou de Santo André. Eu só nasci lá.

E mesmo com sua atuação na área da moda e beleza, onde você teve a possibilidade de conhecer diversas cidades e países, você escolheu estabelecer sua residência em São José. O que te atrai na cidade?

Esse era um projeto que eu já tinha há muito tempo, de um dia voltar a morar em São José e eu sabia que tinha que ser antes dos 50 anos e eu consegui! Eu amo essa cidade, os meus melhores amigos, a minha vida toda está aqui. Eu morei 30 anos em São Paulo e um dia eu tinha que voltar e resolvi voltar há quatro anos. Antes eu morei em São Francisco Xavier, depois me mudei para o Urbanova.

Que motivos lhe fizeram escolher o Urbanova?

Porque é o melhor bairro (risos). É o bairro que eu mais me identifico em São José. Existe uma falsa tranquilidade. Tudo mentira, mas eu gosto de me enganar. Eu acho que o perigo está em todos os lugares, né? Agora a gente achar que o Urbanova é o lugar mais tranquilo de São José, a gente está se enganando.. não é! Acontece muita coisa, mas acontece em todos os lugares, não é só aqui. Eu gosto desse bairro porque é um bairro que tem muita mata, tem o rio aqui do lado. Eu gosto de bicho, tenho um apego com bicho enorme. Aqui na minha casa eu tenho seis gatos. Eu vim com dois e já estou em seis, eles vão aparecendo e eu vou castrando, cuido e eles ficam.

No Urbanova acontecem casos graves de envenenamentos de gatos, que até  já denunciamos aqui na Revista. O que você tem a dizer dessa atitude criminosa?

Realmente é crime. Eu estou muito atento aos meus bichos. É difícil a gente conseguir descobrir quem é o criminoso. Agora, como pegar essas criaturas é que é difícil. Para entrarmos com processo é preciso descobrir quem cometeu o crime e registrar um flagrante e é um problema, pois a pessoa age na miúda. Meu gato ficou oito dias desaparecido e eu descobri que ele estava a 4 km de distância. O gato não caminha tanto assim, ele é muito manso, é um querido, ele ama ser humano, então qualquer pessoa consegue pegá-lo no colo. Eu tenho pensado muito em sair do bairro por causa disso.  É horrível, né? Essas pessoas que não gostam de bicho, deviam morar em apartamento e quem tem bicho pode morar em casa, ou quem gosta, quem ama bicho. Agora, como prevenir? Prendendo os gatos em casa? Eu acho que o cachorro tudo bem, ele precisa do dono, não pode ficar solto sozinho, mas o gato é mais independente, e ele não faz mal a ninguém, não vai morder ninguém, envenenar uma criança.

carrasco3O que dizer desse comportamento criminoso?

É sim um comportamento criminoso, as pessoas deveriam tomar consciência e denunciar. Se você ver um ato, se você ver alguém deixando um cachorro, um gato em algum terreno baldio, denuncie, anote a placa. Essas pessoas só vão entender o mal que elas estão fazendo quando elas forem autuadas, multadas, presas. Quando eu fui buscar meu gato próximo ao Clube Santa Rita eu fiquei horrorizado com a quantidade de gatos ali. São gatos abandonados, esse local acabou virando um grande depósito de animais. Por sorte, uma mulher que mora em uma chácara próximo ama animais, então ela tenta cuidar, mas o que podemos fazer? Se a sociedade não se juntar, se não tivermos leis mais severas, se nossos vereadores que estão aí querendo nosso voto agora, se eles não se mostrarem aptos a combater esse crime, continuaremos a mercê. Eu sou de uma família de protetores de animais, eu aprendi desde pequeno a respeitar e defender os animais. Animais, crianças e idosos, porque são justamente os seres que mais precisam se proteção. Eu tento proteger crianças, idosos e animais.. o resto é resto!

Você tem uma atuação brilhante no mundo da beleza.  Em que momento você decidiu ingressar nessa área?

Na verdade eu fui jogado nesse meio, eu tinha um grande amigo aqui em São José – o Zezé e eu trabalhava no banco. Ele precisava de um assistente de final de semana,  e eu fui dar assistência para ele. Descobri um amor pela profissão ali. Sai do banco e, em um ano de profissão, fui embora para São Paulo. Em São Paulo passei anos da minha vida trabalhando, tentando meu espaço, ate que eu consegui e vivi coisas lindas lá.

É um mercado muito disputado, mas você conseguiu o reconhecimento como um dos mais renomados e disputados profissionais do país.  Como você se diferenciou e a que você atribui esse reconhecimento?

Amor à profissão. Não existe outra coisa. Eu não entrei na carreira pensando em dinheiro. Eu me apaixonei pelo trabalho, eu não entrei no mercado pensando  “eu vou ser alguém” “eu quero ser o cabeleireiro e maquiador mais famoso do Brasil” – nada disso. Eu apenas queria um dinheirinho para pagar meu aluguel, ter dinheiro para frequentar as baladas no final de semana, para cuidar dos meus bichos e as coisas foram acontecendo. Então eu não almejei nada disso, não planejei nada disso.

Qual foi o momento mais especial de sua carreira?

Todos são.. mas eu acho que o momento mais especial foi quando eu inaugurei meu salão em São José. Era um sonho . Fiquei 15 anos com o salão aberto em São José – foram muitos momentos lindos, algumas decepções também. Tomei a decisão de fechar, pois eu me sentia muito cansado , desgastado e a gente tem quem saber a hora certa de parar. Precisamos entender o processo de começo, meio e fim, então eu tive o começo, um meio maravilhoso e tive um fim.  Eu escolhi desacelerar com 50 anos, encerrei um ciclo e estou começando outro.

Como é sua rotina profissional hoje?

Eu tenho viajado o mundo, o Brasil. Faço poucos trabalhos, mas as poucas coisas que faço tem relevância, eu seleciono melhor, trabalho só com amigos. Eu não trabalho mais com pessoas que eu não tenho nenhum tipo de afinidade. Só faço dois eventos de moda hoje em dia, que são eventos que me satisfazem a alma, que é o Angola Fashion Week, com Reginaldo Fonseca e o outro é o Oscar Fashion Days. Eu não faço mais nada de moda, além desses dois eventos. Neles eu tenho satisfação pessoal, eu saio feliz desses dois trabalhos. O São Paulo Fashion Week me trouxe muitas realizações durante um período, mas nos últimos anos foi quase por obrigação e, para mim quando se torna uma obrigação e causa um desgaste, não vale a pena.

Que trabalhos você está desenvolvendo em SP?

Só faço publicidade. Tudo o que você vê do Rodrigo Santoro, fui eu quem fiz, alguns trabalhos da Débora Bloch. Eu não tenho mais ninguém como eu era antigamente, por exemplo: “ele é o maquiador oficial da fulana”. Não tenho mais isso, pois desta maneira eu relaciono muito meu nome ao dessa pessoa e ela se sente na obrigação de trabalhar comigo o tempo todo. Eu estou em um patamar da minha vida que o trabalho precisa representar satisfação, mais do que obrigação.

Nos últimos anos estamos passando por uma grande transformação na área da beleza e publicidade. O que você acha dessas mudanças? Das fotos mais trabalhadas com os programas de tratamento, do culto exagerado a beleza?

Eu acho uma grande fantasia. É uma grande mentira. Eu sou da época do analógico, não tinha digital, então as pessoas falam que hoje em dia as fotos são mais trabalhadas, mas não é.  Na minha época a foto era trabalhada, porque não existia o photoshop, então você tinha que fazer a foto acontecer. Era muito mais trabalhoso, existia mais arte. O trabalho era mais minucioso, detalhista e hoje em dia eu não vejo assim. Hoje a fotografia ficou preguiçosa. Eu ouço os profissionais dizendo: “isso a gente resolve no photoshop” – eu fico indignado, para mim isso é um absurdo, a imagem precisa estar pronta ali, no momento do click. Essa coisa de consertar no photoshop eu não consigo digerir. Eu me lembro de quando surgiu o photoshop e quando as revistas começaram a exibir as modelos “photoshopadas”, então a mulher que era mais redonda ficava magra, os cabelos com brilho impecável, sem um fio fora do lugar. Isso não existe ! Quando isso começou, houve uma tentativa de não deixar que a moda seguisse para esse caminho. Era impossível.. não conseguimos controlar isso, então a moda acabou entrando nesse contexto de massa.  Quando eu vi a minha primeira capa “photoshopada” eu não reconheci o meu trabalho e não reconheci a mulher. Foi nesse momento que eu comecei a ver que eu precisava desacelerar e sair porque eu não ia conseguir me adaptar a mentira.  Tem um desejo mentiroso, em cima da internet. É um desejo “i wanna be”, eu quero ser aquilo – você nunca vai ser! Vamos colocar o pé no chão. A mulher brasileira é cheia de curvas – ela não é reta. As mulheres que pedem para serem afinadas em uma foto, para tirar as rugas elas acreditam na mentira. Eu acho que todo mundo precisava tomar antidepressivo, começa por ai, porque essa é uma doença da sociedade, você acreditar na mentira e querer se a mentira. Isso para mim é o pior, diminuir o seu braço, diminuir seu rosto, e depois você olhar no espelho e achar que é aquilo. É uma doença. Até existe um movimento grande de pessoas importantes não querendo mais suas imagens alteradas, algumas atrizes internacionais não querem mais, mas eu não sei se vai dar certo. O Brasil se diz ser um país sem preconceito e sem racismo, mas é raro você ver uma capa de revista com uma negra. Como assim, né?  Eu li em uma revista que Nova Iorque está pedindo mais modelos negros e asiáticos nas passarelas, eu acho que existe sim um movimento no mundo, mas eu não vou ver, nem você. O Brasil é um país hipócrita em relação a preconceito e racismo. Existe o racismo sim, existe o preconceito. Óbvio que a gente não pode generalizar, nem todo mundo é racista e preconceituoso, mas a grande maioria é.

Você é conhecido pelo seu estilo “menos é mais” em seu trabalho. Por que você decidiu seguir essa linha?

Não apenas em meu trabalho, mas na minha vida. Na minha casa eu não tenho uma casa decorada por decorador, eu tenho uma cama de casal na cozinha, eu acho que a gente tem que ter a simplicidade em tudo. Eu sou gay, mas sou homem. Meu lado masculino não gosta de ver uma mulher muito montada. Eu não gosto de olhos pretos, esse olho que toda socialite gosta,  aquele olho esfumado preto, eu não consigo digerir esse olho.

Então você não faz?

Não. De jeito nenhum!  Eu digo: olha você veio no lugar errado. Eu não vou fazer. Eu sou das mulheres saudáveis, lindas e naturais. Não existe mulher feia, existe o uso errado das coisas!  Eu não acredito em mulher feia. No meu vocabulário não existe. Essa coisa do olho preto é algo chocante a quantidade de mulheres que gostam desse olho preto. Eu tenho uma opinião muito formada sobre isso: na moda  quando a gente quer envelhecer uma menina de 15 anos para sair em uma Vogue e ela precisa ter uma aparência de 27, a gente usa o olho preto e cabelo volumoso, na minha cabeça, o olho preto é para envelhecer. Mas aí tem o outro lado, eu sempre pergunto isso  para todas as mulheres – me aponte uma mulher, linda, chique, elegante, no tapete vermelho de olho preto? E ai, eu te aponto as que são vulgares: a Pâmela Anderson usa olho preto, as panicats só usam olho preto. Olho preto se tornou vulgar, ele era um clássico do inverno e hoje em dia não tem inverno e não tem verão, ele está em todos os momentos, então ele saiu do clássico e virou vulgar.

O que você acha das blogueiras e youtubers que fazem tutoriais de maquiagem e moda?

Eu acho um grande equívoco. Tem muita besteira e quando você olha é quase um drag queen fazendo um tutorial. Você vê uma mulher de um jeito e de repente ela se transforma com uma pele grossa, um olho escuro demais, tudo é muito marcado, pesado. Homem nenhum gosta de mulher vestida de travesti, maquiada de travesti, penteada de drag queen. Nada contra drag queen, eu tenho várias amigas drag queens, mas mulher é mulher, drag é drag.

 

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